Salvem minha Vila.
Que tristeza por minha Vila Cruzeiro. Meu coração aperta a cada notícia triste que vejo sobre "minha segunda casa", o lugar onde cresci, a favela onde não nasci, mas que parte da minha família sim. Uma história de décadas vivida naquele local, no Complexo da Penha.
Do terraço da casa de meus avós, Rufina e Francisco, no alto do morro, dava pra ver a Igreja da Penha* que já visitei algumas vezes. Dava pra ver os aviões decolando do Galeão, dava pra ver parte do Rio. Aquele terraço era parte do nosso mundo.
As crianças da família, meus primos, faziam daquele enorme espaço o parque de diversões, bola, corrida, construção de brinquedos, como pimball feito com pedaços de antena "osso de peixe", chapinhas de cervejas e refrigerantes e mais o que coubesse, tábua de futebol de pregos para jogar com moedas, um barato, além de instrumentos musicais de latinhas e latões recobertos com sacão de 5kg de arroz vazio só pra imitar as escolas de samba e as bandas de folias de Reis, o dia mais feliz de janeiro para nós.
Ver a Folia de Reis era um caso a parte, meus avós moravam num pequeno largo no alto do morro onde se encontram duas vielas, uma percorria todo morro, passando pelo portão de nossa "fortaleza", a outra vinha do outro lado dando de cara com a outra, no meio o bar do Isaías (por favor parentes me corrijam, a cabeça anda falhando). Era nesse Largo que três grupos distintos de Folias de Reis se encontravam para os desafios. Um vinha de cima, o outro subia o morro e o outro vinha pelo o outro lado. Assistíamos tudo de camarote, lá do terraço. Era fantástico, nossos olhos brilhavam e os moradores todos se reuniam como um mar de gente pra ver as danças e os duelos de bandas marciais.
Por aqueles vielas desciamos correndo feito super-heróis improvisados com os lenços da minha vó e tia como capas. Tínhamos o poder de desaparecer, para desespero dos nossos tios, mas com certeza estávamos bem, ali sempre estávamos bem.
Tantos amigos, tantas casas para brincar. Minha avó ia à feira e levava a tropa de crianças junto, era uma festa. Vó Rufina comprava suas frutas pra fazer sorvete e... lactobacillus vivos, gente. Era coisa de outro planeta ver aquilo se reproduzindo e aumentando de tamanho em horas.
O sorvete era famoso, quem comprava, repetia, um dos clientes da nossa vendinha também era o "di menor" Adriano, hoje Imperador, que quando não estava no campinho do outro morro, corria pelas vielas também.
Por ali tinha de tudo e ainda lembro da desorganização das calçadas, o mercado Rainha e o Parque Shangai, o melhor.
A Vila Cruzeiro era meu lar, podiam falar o que fosse, mas eu contava os dias pra ir escutar rock com meus tios no terraço e brincar de pique esconde naquela imensa casa, no alto do morro e no meio da favela.
Quando ainda morava na Penha, bem pequeno,
ia pulando de casa em casa. Ia pra casa da minha madrinha Deise e minha Tia Lena, que me "raptavam" pra passar o dia todo cuidando de mim, Tia Lena, minhas Tias Ruth e Sinésia.
Aqueles tempos eram outros. Há uns 40 anos atrás tudo era tranquilo, éramos livres. Hoje já não podemos ir tanto lá. Não sei se meu amigos de infância ainda estão por lá, se conseguiram sair ou fora absorvidos.
- “ah, se morrer é só enterrar”. - PM
Minha vida lá foi um aprendizado, uma alegria, e quando vejo notícias nas mídias sobre a última chacina, apontada como a segunda mais letal da história do Rio onde 26 pessoas morreram, sinto uma tristeza grande, uma raiva que não cabe em mim e só me resta orar pelas pessoas daquele lugar.
Salvem minha Vila Cruzeiro.
Salvem meu Rio de Janeiro
Leo Zulluh
*"Diferente da maioria das comunidades do estado, que foram crescendo populacionalmente nos anos 60 e 70, a história do Complexo da Penha começou muito antes, na época da escravidão.
Ex-escravos encontraram acolhida no entorno da Igreja da Penha no século 19.
A comunidade era o endereço certo para a liberdade dos escravos foragidos, que se refugiavam nas encostas dos morros da Penha. A região era então administrada por um padre abolicionista e republicano que os abrigava e protegia."
Trecho retirado do site: https://www.vozdascomunidades.com.br/favelas/complexo-da-penha/complexo-da-penha-como-tudo-comecou/

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