Do que somos feitos afinal?

 

A maioria aqui já deve ter lido e até mesmo feito essa pergunta, mas achei um bom título para esse momento em que estamos vivendo, até porque venho atualmente me indagando demais sobre isso.   

Faz tanto tempo que não publico nada por aqui que quero tentar fazer um apanhado de tudo que nos vem acontecendo desde então, porém de um modo diferente. Na verdade, escrevi esse texto em julho para uma publicação que sairia em agosto, mas tudo anda tão difícil para tantos que a revista vai demorar a sair e não quero perder o timing. De lá pra cá tanta coisa tem acontecido que poderia ter dificuldade até mesmo de escolher um tema específico para colocar aqui, mas não. O texto que sairia antes desse falava do início do verão de 2021, olhem só, mas a estação é outra, os tempos são outros e infelizmente tudo continua girando em torno de uma coisa só: a pandemia. 

Lá em 2020, o ano que não acabou, tivemos que acompanhar perplexos um acontecimento de nível mundial influenciando, direta e indiretamente, nossas vidas sem a menor cerimônia e mudando completamente tudo ao nosso redor. Se por um lado costumamos dizer que o tempo parou, por outro vemos acontecimentos em sequência que desafiam o entendimento de nossas próprias realidades. Como estamos nisso tudo?

No fim de janeiro desse ano decidi me retirar de todas as redes sociais possíveis, parei de assistir TV, acessar sites de jornais e revistas só pra não saber o que estava acontecendo da minha vida pra fora e assim me desgastar ainda mais. Manter a sanidade e integridade física em um momento tão horrível requer mais que força.  


Eu estava descendo uma montanha russa de emoções que misturavam o medo de contrair a doença sendo portador de comorbidades, ansiedade em ver meu filho pequeno sem sair de casa até pra escola, preocupação com os rumos do meu trabalho e o pior, notícias de pessoas queridas e que fizeram parte de algum momento da minha história partindo. Sério, todo dia era uma homenagem diferente para alguém que acabara de morrer e isso estava me devastando, a depressão que infelizmente é uma companheira de tempos já estava no nível máximo e tentava não me abater. Difícil. Até meu amigo Fabiano, editor da revista para qual escrevo esporadicamente, sentiu no corpo as mazelas desses tempos sombrios. Se recuperou, deu a volta por cima, voltou pra contar a história e em breve sua revista estará de volta. Imagino que muitos aqui também passaram por situações parecidas. Olhava-me no espelho e o questionamento recorrente era como ainda conseguia estar de pé diante de tanta adversidade. 

Há quem diga infamemente, na minha opinião, que tirou muita coisa positiva de dois mil e vinte, bem, se não for dono de funerária ou drogaria, a única positividade é estar vivo enquanto até o momento quase chegamos aos seiscentos mil mortos só no Brasil.  

 Como aguentamos isso? O que nos mantém firmes mesmo com todo esse sofrimento, se a cada vez que vemos uma luz no fim do uma avalanche vem para testar nossos limites? Somos eternos Sísifos rolando pedra montanha acima? Se perguntar a um cristão, este vai responder que o sofrimento é preciso porque passar por situações difíceis leva a purificação e assim somos salvos por Deus. A Via Crúcis necessária para a salvação. 



Se olharmos pelo prisma filosófico tudo isso que estamos passando serve como autoconhecimento, vivência e aprendizado. Um psicólogo talvez diria que o sofrimento humano é um fenômeno complexo, mas isso nos dá uma enorme coragem, profunda compaixão e uma habilidade notável de seguir em frente mesmo a despeito de experiências pessoais terríveis. Somos feitos de que, para que em tempos como esse onde o perigo e a imprevisibilidade nos ronda sejamos capazes de seguir em frente de peitos estufados, de nos mantermos sãos em meio a tanta loucura. Nós somos aqueles que mesmo sabendo que vamos nos machucar, amamos. Mesmo sabendo que vamos morrer um dia, fazemos planos e nos preocupamos com o futuro. Por vezes não temos nem ideia do sentido de muitas coisas da vida, mesmo assim seguimos com ideais. 

Atualmente descobri que a única solução pra meu problema de coração é abrir o peito e colocar algumas pontes de safenas para sobreviver. A situação no momento não é uma das melhores e mesmo assim ainda estou de pé, como? Não sei.

Só sei que se chegamos até aqui, ainda que meio cambaleantes, fracos e tontos, ainda resta um pingo de esperança que crescerá pelo caminho nos fazendo cada vez mais fortes como rochas, que mesmo com marcas e erosões mantêm-se firmes, mas com coração, alma. Sobrevivemos e sobreviveremos. Do que somos feitos afinal?

O que sei é que desde lá atrás, em 490 a.c., o grego Empédocles já fazia essa pergunta de forma filosófica, e até científica, afirmando que era possível construir tudo o que existe na Terra, até mesmo nós humanos, com apenas quatro elementos: ar, água, fogo e terra. Pode juntar mais um elemento nesta equação: resistência. E que além disso tornemos a compaixão um modo de ser.




- Leo Zulluh

 

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