O sofrimento pela normalidade
“Eu não consigo respirar!” Foram essas as últimas palavras de George Floyd, um homem negro de 46 anos, morto em Minnesota no último dia vinte e cinco de maio. O aterrador episódio lembra muito algo que aconteceu com Eric Garner, também negro que morreu ao ser preso em 2014 em Nova York. Garner repetiu "Não consigo respirar" 11 vezes. O nome de Breonna Taylor, de 26 anos, morta enquanto dormia com pelo menos cinco tiros, disparados por policiais à paisana que haviam arrombado a porta do seu apartamento no meio da madrugada continua sendo repetido por manifestantes, políticos e celebridades nos Estados Unidos.
Eu poderia começar esse texto relatando sobre algo mais próximo, aqui no Brasil mesmo, como o menino João Pedro de 14 anos morto com um tiro na barriga pela polícia, mas é sobre a sensação de sufocamento diário que milhões de pessoas como eu que quero falar. Todos os casos citados têm algo em comum, a condenação antes de um julgamento. Não digo daquela condenação perante a um tribunal, mas sim a condenação diária que pessoas negras sofrem constantemente, aquele dedo que aponta e rostos que se viram ou fitam um indivíduo de cor com medo, sempre sob suspeita. Todos esses eram apenas suspeitos. Por mais que pareça exagero da minha parte, ou mimimi como costumam dizer, isso faz parte de uma realidade dura, cotidiana e histórica em nossas vidas, o racismo. Infelizmente o assunto só ganha destaque de tempos em tempos com tragédias que comovem o mundo ou em casos de ataques a celebridades negras de nosso País.
Todos já conhecem o racismo em sua forma mais bruta, a do ódio dos ataques, agressões e abusos policiais, mas ao que parece só estão começando a entender o racismo estrutural agora, que é a forma mais branda e passou muito tempo quase imperceptível. Pode não parecer, mas essa forma de racismo é ainda mais. Como bem disse o advogado, filósofo e professor universitário, o racismo estrutural mantém as relações em seu padrão de normalidade, aceitemos ou não, o racismo acaba se tornando um modo de estrutura social normal da vida cotidiana. Falando de forma simples, trata-se de um conjunto de práticas, hábitos, situações e falas embutido em nossos costumes promovendo, direta ou indiretamente, a segregação ou o preconceito racial. Por ser quase imperceptível ele perdura e também danifica de forma ainda mais cruel. Cito come exemplo alguns casos que acontecem comigo, durante anos trabalhei como consultor de vendas e também gerente, precisava andar a todo tempo de terno e gravata pra cima e pra baixo, durante esse tempo nunca me perguntaram se eu era advogado, empresário ou até mesmo um executivo. Ao andar num shopping sempre me pediam informações achando que eu era segurança, não desmerecendo a função, porque essa era a visão que tinham sobre mim. Um executivo negro é difícil, é muito mais fácil eu estar de terno sendo segurança ou motorista de alguém. Porém ao entrar num shopping, não importa a forma como me visto os seguranças se movimentam, se comunicam, assim como num supermercado ou qualquer outro comércio onde tem sempre um seguindo meus passos. Imagina numa pandemia usando máscara? Quando uma vez chamei a polícia para uma amiga que foi assaltada quem foi revistado de cara pra parede dos pés à cabeça fui eu, mesmo com minha amiga dizendo que os assaltantes saíram correndo pelo lado de onde os próprios policiais vieram.
A normalidade desse racismo estrutural infelizmente e historicamente é o negro em seu lugar, sempre inferior ao outro quase apagando sua existência ou vontades, se é negra deve ser empregada, ambulante, prostituta, mas raramente algo maior. Se é negro de camiseta na rua é vagabundo, pedreiro, funcionário, nunca um chefe. Esse conjunto de práticas sufoca, extenua um indivíduo fazendo com se sinta ninguém, nada. Um exemplo recente disso é o drama que o Professor de história José Nilton da Silva Júnior, 39, do Colégio La Salle Abel, em Niterói, vem sofrendo de alunos e ex-alunos. O racismo já estava lá, mas se manifestou ainda mais sob o “véu” de proteção da internet com ataques diretos e explícitos a sua cor: "Tão aí babando ovo de Júnior, vai se f***, macaco. Vai tomar no c*, Junior (...) Macaco não tem lugar de fato. Volta para a selva...” era o conteúdo de um vídeo direcionado a ele, professor de uma das escolas mais tradicionais e caras da cidade. Poderia citar mais diversos casos como esse, mas daria um livro imenso. É só lembrar-se do Advogado agredido e algemado após ser impedido de usar elevador no Tribunal Regional do Trabalho, a advogada presa durante uma audiência... Estou falando só dos que tem diplomas, imaginem o povo comum como o jovem músico negro da Orquestra da Grota Luiz Justino, preso após reconhecimento fotográfico feito em 2017, por uma vítima de assalto. Luiz estava trabalhando no dia do crime. E também do jovem negro Danilo Félix, preso após ser reconhecido como suspeito de cometer um roubo a mão armada no centro de Niterói em julho de 2020 com fotos extraídas do seu perfil do Facebook e que datam de 2017. Danilo na época não possuía tranças nos cabelos. Faço questão de citar esses dois casos mais recentes por ter algo em comum, o reconhecimento digital como prova de um crime. Pode não parecer, mas infelizmente o perigo para a comunidade negra por tecnologias de reconhecimento facial é uma crescente. Digo, pois os exemplos são alarmantes.
No início de janeiro de 2020, Robert Williams foi preso em Detroit e passou 30 horas em detenção porque um programa concluiu de modo equivocado que a foto em sua carteira de motorista e a imagem de um ladrão de relógio capturado por câmeras de vigilância eram idênticas. Uma pesquisa divulgada na revista Science em 2019 mostra que o software usado para o atendimento de dezenas de milhões de pessoas americanas privilegia pacientes brancos em vez dos negros. Um outro estudo recente publicado pelos pesquisadores Hany Farid e Julia Dressel, do Dartmouth College concluíram que o programa COMPAS, amplamente usado pela justiça dos EUA para prever a reincidência criminal, teve sucesso em 65% das previsões, enquanto os humanos acertaram 67% dos chutes, porquê? Simples: o tal software tende a prever de maneira equivocada a reincidência criminal de pessoas negras, apontando o dobro da probabilidade em comparação com brancas. A Universidade da Califórnia (UCLA) desistiu, de usar reconhecimento facial em seu campus. A tecnologia que vinha sendo avaliada como ferramenta de segurança, para identificar os frequentadores da universidade retornou nada menos que 58 falsos positivos. A maior parte dessas respostas erradas ocorreu na avaliação de rostos de pessoas não brancas. Todos esses exemplos tem a ver com o racismo estrutural já que mesmo sendo inteligências artificiais são programas criados por seres humanos e sua compreensão e vivência do mundo ao redor.

Saindo da análise mais científica, devido a vivência nessa estrutura o orgulho negro pra mim foi difícil, bem difícil, e acredito que pra muitos também seja. Até uns anos atrás me identificava muito pouco como negro, apesar de ser. É difícil crescer numa sociedade que entende negro como uma coisa ruim e cada um se identifica com isso de uma forma. Apesar de ter passado parte de minha infância numa "favela", Vila Cruzeiro, Complexo do Alemão, Rio de Janeiro, haviam poucas referências para mim do que era orgulho de ser negro, não tinha orgulho algum. Todo meu pensamento era guiado por uma branquitude que eu não tinha, que apenas cobiçava para diminuir a rejeição que nas escolas onde estudei só fez piorar. Crescer rodeado de amigos em sua maioria brancos e estudar em colégios particulares caros também não ajudaram muito. O preconceito, que eu não reconhecia estava lá, o bullying estava lá e as meninas que eu me apaixonava preferiam os outros, loirinhos, brancos com longos cabelos lisos também estavam lá. Nisso eu só desejava em nascer de novo, não ter essa cor, esse nariz, ou esse “cabelo ruim”, que tanto faziam questão de apontar e zombar. “Seu preto”, “macaco”, “mico preto” e “tição” eram "elogios" comuns e era preciso ficar quieto senão era pior, até o professor zoava. O apelido Zulu veio de um colega que nem branco era, mas era a referência de negro que ele tinha e foi só para me zoar ainda mais, porém me apropriei. Eram poucas as referências de luta e afirmação que eu tinha acesso. O negócio era entrar na onda e se "embranquecer" ali como ainda acontece com tantos outros para amenizar a dor.
Já fui um daqueles que contavam piadas de preto em rodinhas de bar e quando me chamavam de negro eu dizia que era marrom, mulato, moreno, "marrom piscina"(seja lá o que isso quer dizer), mas nunca negro, preto então nem se fala, era essa normalidade do racismo estrutural falando mais alto. Os anos passaram e absorvi o que pude, estudando guerreiros antigos, pensadores atuais como o já citado Silvio Almeida, Djamilla Ribeiro, Conceição Evaristo, músicos, até porque ouço rock pesado, heavy metal e quando descobri bandas formadas só por negros mudei muito minha forma de pensar, mas até isso é algo inimaginável porque o gosto musical do negro também é moldado por esse racismo. Fui me redescobrindo para só então me orgulhar de ser negro e lutar. Até alguns anos atrás raspava minha cabeça toda semana, careca, por quê? Oras, porque meu cabelo era ruim. Fui condicionado desde cedo a acreditar que meu cabelo crespo era a pior coisa do mundo e assim eu era feio, claro, é a regra. Hoje meus cabelos lindos e grandes estão aqui em cima da minha cabeça com minhas mechas brancas caindo sobre minha testa.
Se reconhecer negro é lindo, principalmente quando você encontra seus iguais, ouve suas vivências e aprende mais com elas. Se reconhecer preto e se orgulhar disso sem medo é um processo de evolução dentro dessa normalidade estrutural do racismo. Sim, hoje até prefiro que me chamem de preto. Não tenho problema com isso. Sigo na luta com consciência. O apelido pejorativo de outros tempos "Zulu" ganhou mais um "L" e um " H" no final, virou nome, virou marca, símbolo. Quando um negro ou preto quebra essa estrutura ele se entende como algo importante, como uma essência. Vê-se muito mais como parte de um todo, como parte de uma força cada vez mais inserido nas causas e discussões do tema, coisas que anos atrás jamais pensei em fazer. Quando temos consciência de que o racismo estrutural existe nos libertamos das correntes da cor, nos orgulhamos da pele. Digo sempre que os negros precisam conhecer sua história, porque quanto mais sabemos mais fortes nos tornamos, participar de reuniões, se reconhecerem, darem as mãos e acima de tudo se respeitarem. Queira ou não queira vivemos num país racista com aval superior e não ser racista não basta, é preciso ser antirracista. Só assim seremos mais fortes e construiremos enfim uma sociedade igualitária para que não sejamos os próximos Floyds, Justinos, Garners, Danilos, Pedros, Niltons e tantos outros. Precisamos respirar, e pra isso precisamos tirar o pé do racismo de nossos pescoços.
Leo Zulluh (texto publicado anteriormente na Revista N_Especial Retomada_Out 2020)
(*) A foto faz parte emocional série Aceita?, de Moisés Patrício, um diário fotográfico, realizado desde 2014, via Instagram https://www.instagram.com/moisespatricio/. São mais de mil imagens da palma da mão esquerda do artista. A mão se estende e oferece os mais diversos objetos encontrados nas ruas de São Paulo. Em algumas fotoperformances surgem palavras escritas. A cada dia uma imagem-enigma aos seguidores. Em todas, está o gesto de oferenda (essencial no candomblé). A mão, continuamente, expõe a intolerância étnica e religiosa. E cotidianamente questiona: “Aceita?”.

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