#NÃOQUEREMOSSERFAVELADOS
#NãoQueremosSerFavelados
Por: Leonardo Zulluh
Por: Leonardo Zulluh
No meio de tantos acontecimentos nessa última semana um dos
eventos mais dramáticos passou quase despercebido. Digo quase porque alguns indignados,
pouquíssimos por sinal, se comprometeram a compartilhar e reclamar dos
acontecimentos tristes do último dia 29/11/15 onde cinco jovens foram mortos
desarmados com mais de 100 disparos, na entrada da comunidade onde moravam. O
que Roberto de Souza, 16 anos, Carlos Eduardo da Silva Souza, 16, Cleiton
Corrêa de Souza, 18, Wesley Castro, 20, e Wilton Esteves Domingos Junior, 20, faziam
lá? Estavam comemorando o primeiro salário de um deles. O primeiro salário de
um novo emprego, vagabundo não era. Carlos Eduardo tinha acabado de concluir um
curso de Petróleo e Gás e se preparava para tentar concurso para a Marinha. Um
deles havia acabado de prestar serviço para o exército e estava trabalhando com
seus dois irmãos numa oficina, vagabundo? Acho que não. Para algumas pessoas,
inclusive para a madrasta de um dos jovens, a polícia se enganou. Não cabe aqui
analisar e criticar a já reconhecida atuação vexaminosa da polícia, eles se encarregam
disso com uma facilidade extrema. 100 tiros por engano? Nem numa barata damos
20 chineladas por engano.
Mas por que com tanta informação sobre o assunto, a revelada crueldade
da polícia e o sofrimento dos parentes das vítimas gera menos comoção do que
uma ofensa racista à Thais Araújo? Porque nos solidarizamos tanto com uma
ofensa dirigida à Cris Vianna, Sheron Menezes, Pelé, opa esse nunca sofreu racismo,
e Majú a ponto de gerarem hashtags e campanhas acaloradas pelo fim do
preconceito racial internet adentro? Qual a diferença?
Vou contar uma coisa, eu cresci num morro. Passei grande
parte da minha infância correndo em vielas esburacadas entre casas sem
acabamento. Em uma boa parte da minha adolescência senti certa vergonha em
dizer onde cresci. Estudar em colégios particulares e de classe média gerava
esse desconforto, era como se você fosse mal visto por ter vindo de uma favela.
Aquilo definitivamente não era bem aceito dentro daqueles altos muros com
crianças em sua maioria branca, ou mestiças que se achavam brancas, entenda
como quiser. É realmente desconfortante para alguém dizer que veio de uma
favela. Numa sociedade cada vez mais intolerante como a nossa, vergonhoso seria
a palavra certa. Cresci estudando, me politizando, me engajando cada vez mais
sobre minha origem e já não tenho mais vergonha em dizer que cresci em uma
comunidade, mas me deparo com muitas pessoas que não ousam dizer de onde
vieram. Não admitem que passaram por maus bocados e que aprenderam com isso, ao
contrário, preferiram guardar essa parte da história e esconder cada
preconceito sofrido.
Porque essa volta toda pra tratar do assunto que comecei? Está
diante de nossos olhos. Todas essas celebridades representam um ideal, um
exemplo a ser seguido. Ricos, glamourosos, bem sucedidos, assediados, tudo que
em nossas vidas mundanas não temos, mas gostaríamos de ter. Estar em evidência
na TV, cinema ou falando pra milhões de pessoas é bem mais legal que estar num
carro velho fazendo um lanche num “podrão” da esquina. Quantos Carlos, Wesleys,
Renatos, Wiltons e Cleitons são mortos e sofrem preconceito por sua raça/cor
por dia? Cadê a comoção com Claudia Silva, assassinada pela PM e arrastada pela
viatura da polícia?
Apesar da grande repercussão que ofensas raciais a
celebridades é capaz de gerar e trazer á tona discussões sobre o tema, isso
ainda é desproporcional demais comparado a tudo que acontece ao redor. Thaís Araújo
e Majú são mais importantes que outros casos noticiados no dia a dia? Se
olharmos pelo prisma do que “queremos ser”, do que “não queremos ser” e do “que
se é”, quem cai no esquecimento?
Ninguém quer ser favelado! Por mais que digam o
contrário, ninguém. Favelado, diga-se morador de comunidade, trás uma bagagem de
negatividade histórica imensa. Morar na favela é ruim porque na favela existem
traficantes, bandidos, sequestradores e prostitutas. Sabemos que não é verdade,
mas vivemos numa sociedade que generaliza tudo, e pra pior. O menininho do
bairro de classe média cresce sabendo que aquele morro com amontoados de casas
feias é um lugar ruim. As pessoas de terra firme acreditam piamente que tudo de
ruim que acontece com elas aqui vem de um lugar como a “favela”. Está encravado
fundo que nem tatuagem. No fundo “favelado” só é legal na novela de horário
nobre com todo o glamour das cores da TV ou quando vão a bailes funks e sambas frequentados por artistas, mas na realidade, aqui embaixo não é
bem assim.
Isso reflete diretamente na comoção. É muito mais fácil se
sensibilizar por alguém famoso do que por alguém desconhecido, que na cabeça de
muitos pode vir a ser um bandido, porque não? Quando o menino Eduardo de Jesus,
de 10 anos, foi assassinado na porta de casa no Complexo do Alemão li um
comentário num grande portal que dizia o seguinte: “Quem garante que esse
garoto não iria virar bandido já que ele mora numa favela?” O pensamento é
esse. Num País onde 41.127 negros foram mortos só em 2012 contra 14.928
brancos, numa “crescente seletividade social” (segundo o Mapa da Violência- http://bit.ly/1lUAF6M),
a quantidade de pessoas que ainda hoje dizem que o assassinato dos cinco jovens
em Costa Barros não foi um ato racista, por incrível que pareça, é enorme.
E é nessa sociedade que estão os “#SomosTodosAlguém” da vez,
esperando algum famoso sofrer nas mãos de racistas. “#SomosTodosJovensNegrosAssassinados”,
alguém? Acho que não.
Vida que segue. Z



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