ReContando 2
Roberta e Rômulo
Roberta sabia bem o que queria, gostava era de mordomia. Era
casada com Rômulo, professor de Educação Física em um colégio estadual. Rômulo
era o tipo, segundo os vizinhos, um Apolo Negro, alto, bonito e com uma
imponência de fazer frente a jogador de basquete. Além de tudo era simpático, o
famoso “boa praça”, que falava bom dia até pra cachorro. Foi um casamento
perfeito, o bairro inteiro compareceu, teve até fogos de artifícios. O cara
nunca foi rico, mas também não era duro. Fazia Educação Física por amor, e era
assim que sustentava a casa, dada pelos pais dele. Roberta trabalhava numa
joalheria no Shopping, seus olhos brilhavam vendo tudo aquilo todos os dias,
diziam que sempre foi deslumbrada com o dinheiro. Apesar do salário, que não
era muito, fazia questão de torrar tudo em roupas e acessórios chiques, pra
desespero do marido. Todos aqueles brilhos e roupas de madame, era isso que ela
queria ser: Ma-da-me, chamavam atenção demais no bairro que moravam. Pra um
bairro de subúrbio de classe média baixa, isso era muito. Se iam a uma
pizzaria, estava lá ela com aqueles balangandãs todos fazendo barulho, se iam
ao culto da igreja, ela parecia que ia a um casamento. Eram discussões
homéricas por causa disso, de parar o bairro, todos ouviam os xingamentos dela
para Rômulo, esse sim um poço de educação. Estava com a razão, mas nunca
levantava a voz. Aturava quieto as ofensas de Roberta, barraqueira dos
infernos, dizendo que ele não queria crescer, progredir, não queria sair
daquele bairro ruim. Nem trocar de carro queria, dizia ela. Bem que o sogro
avisou... Dizia que ele tinha pensamento pequeno, que não dava pra fazer nada
com aqueles salários que ele recebia. Rômulo nem tinha tanta ambição, dava aula
em três colégios diferentes, ganhava muito bem até, mas não para os delírios de
consumo da esposa. Também era fisioterapeuta e dava consultas particulares de
massagem. A disputa era grande, todas as dondocas queriam ser massageadas pelo
Negão. Roberta não ligava muito pra isso, apesar da procura de Rômulo na cama,
ela sempre se esquivava dizendo que estava cansada e tinha dores de cabeça
frequentemente. A maior frustração de Rômulo sempre foi a ausência de demonstração
de ciúmes, na verdade, ele nem sabia se ela sentia isso por ele. Casou-se
apaixonado, mas logo percebeu a furada em que se meteu. Ainda nutria grande
respeito e carinho por Roberta, mas sempre que dava pulava a cerca mesmo,
sempre se envolvia com alguma cliente. Jacqueline não dava a mínima, estava
mais preocupada nas grandes festas organizadas pela dona da joalheria, onde ela
fazia questão de desfilar suas roupas de ma-da-me. Loucura só essas festas,
gente elegante com grana, a nata da nata da sociedade e Rômulo ficava ali, que
nem um dois de paus, parado, sem ser apresentado a ninguém pela má educada da
esposa. Nem precisava, as outras madames faziam questão de vir falar com ele,
puxavam assunto a toda hora e o paparicavam o tempo inteiro, afinal, não era em
toda festa que aparecia um homem com cara de homem. Mas ele não gostava disso, ficar
parado ali, enquanto Jacqueline desfilava pela pista se engraçando com os
grandes empresários convidados não era pra ele, não era digno pra um homem
passar por aquela humilhação. Sempre tinha bate boca, o salão pegava fogo. A jararaca
fazia questão de falar bem alto que ele não pertencia aquele lugar, que ele era
pé-rapado. Numa dessas ele não agüentou, pegou o carro e foi embora. Ligou pros
amigos e em poucos minutos estava num concorrido pagode do bairro do lado, que
freqüentava sempre que podia. Era animado, muita gente, muita mulher dando
sopa, mas Rômulo naquela noite só teve olhos pra uma. Encontrou uma velha
conhecida, mãe de dois de seus alunos. Disse ele para o amigo que ela era a
encarnação de uma deusa, ficou encantado com a sensualidade da mulata. Sempre
que podia fazia uns elogios a ela e a convidava pra sair, sem sucesso. E agora
ela estava ali, na sua frente, linda de morrer. Ficou ali parado, admirando
enquanto outros mais afoitos tentavam a todo custo ter uma dança com ela. Ele
já saturado com a cena, pegou ela com jeito e quando ela se deu conta já estava
sambando nos braços dele pra lá e pra cá. Falou pra Zuleide, esse era o nome
dela, que ela era a melhor coisa que naquela noite. E ela lhe disse que aquilo era loucura, que
ela não conseguia se controlar quando estava perto dele. Apenas dançaram, mas a
noite foi maravilhosa. Dormiu no sofá pra que Roberta não o “azucrinasse as
idéias.” Na manhã seguinte foi acordado por um beijo, a mulher estava mais
mansa, deve ter sido o susto. Os dias se passaram e a cabeça de Rômulo estava
em outro lugar, Zuleide, esse nome se repetia em sua cabeça no ritmo da música
que estava tocando naquela noite. E se encontravam sempre que podiam, atrás da
escola que ele lecionava e no motel. Estava feliz da vida, queria se separar e
tudo. Apesar de Zuleide já ter 4 filhos, ele não estava nem aí, ele sempre quis
ser pai, mas Roberta não queria “estragar o corpo”. Num desses infortúnios da
vida, Rômulo deu de cara com o marido de Zuleide. Foi assassinado, três tiros,
o corno resolveu fazer justiça. A
desgraça estava posta. Nenhuma lágrima escorreu dos olhos de Roberta, na mesma
noite foi encontrar um playboy ao qual ela já andava tendo um caso, o boa vida a
enchia de jóias “caras” do jeito que ela gostava. No dia seguinte já havia
vendido a casa e tudo mais pra morar com o cara. Se enganou feio, era um falsário que roubou tudo dela deixando
ela com uma mão na frente outra atrás, até o emprego ela já não tinha mais.
Tomou uns tapas na cara, uns socos no estômago e foi jogada pra fora do carro
só com o vestidinho no corpo. Um carro que vinha atrás ofereceu carona e uma
proposta: um programa. Recusou na hora, mais depois que viu o maço de dinheiro
mudou rapidinho de idéia. Tornou-se uma constante, descobriu pro que nasceu:
ganhar dinheiro e ser madame, não importa como. E nunca mais se ouviu falar em Roberta. Dizem que
abriu um novo negócio lá em Copacabana que anda fazendo maior sucesso, chamam
de Cabaret da Madame Roberta, As Mulheres Mais Lindas da Cidade. Alto Nível...
Leonardo Zulluh
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