ReContando...
O conto a seguir faz parte de um livro de contos a ser lançado chamado:
ADMIRAVEL MUNDO CÃO
Zuleide
Do tipo que parava qualquer canteiro de obras, Zuleide era uma negra "cor do poder", coxas roliças, seios pequenos e uma bela bunda empinada. Já havia passado dos 30 com bastantes traços de vivência no rosto. A barriguinha saliente já denunciava maternidade. Trabalhava o dia inteiro como faxineira de madame enquanto seus 4 filhos ficavam com a avó. À noite, além de cuidar das crianças, tinha ainda que botar comida pra João, marido exigente, que só permitia que ela levantasse da mesa depois que ele acabasse, mesmo que ela já tivesse jantado.
Comentava com as amigas que já não sentia tesão por ele, que ele só exigia, falava asneira, virava pro lado e dormia. Outros diziam que ele andava se engraçando pra caixa do mercado onde era segurança, a chamavam de Aninha “sem-pescoço”, um cotoco de gente que parecia um “bujãozinho de gás”, segundo o povo maldoso.
Otário João, as cabeças se viravam pra ver Zuleide passar, pescoços quase se quebravam pra admirar Zuleide e ele nem aí. Ela era a eterna apaixonada, sua imponência física contrastava com sua carência afetiva, que não era pouca, sentia falta de ser paparicada, acariciada, adorava um dengo, mas João saia do trabalho e passava horas na rua debaixo disputando purrinha com a turma do buteco, sempre perdia umas cervejas pros cospe grosso. Quando chegava em casa, Zuleide já estava toda cheirosa, arrumada e com a comida à mesa, enquanto João ia direto jantar, sem dar ao menos um beijo, e ia pra frente da T.V., deixando o prato sujo na mesa.
Zuleide nunca foi santa, mas era mulher dedicada a família. Respeitava tanto João e os filhos que quando caiu nas graças do padeiro do bairro, que sempre dava uns pãezinhos pra ela levar e várias cantadas, chorou um mês sem parar. O esforço foi tanto que ela acabou cedendo, só sexo, necessidade mesmo, mas o padeiro era ruim de doer na cama e na 1° vez já se arrependeu e parou com tudo.
Numa sexta-feira foi tentada pelas amigas a sair pra se divertir, aproveitou que o marido sempre fazia pescaria com os amigos e ficava uns 2 dias fora de casa, deixou os filhos com a mãe e foi pro pagode do bairro próximo. Zuleide tirava o fôlego, mesmo com um vestidinho comportado, os contornos do corpo ficavam a mostra e exalava tesão. Não era a mais linda, mas tinha um sorriso cativante. Não tinha quem não queria sambar com ela.
No samba romântico acabou se encantando por Rômulo, professor da escola dos filhos que de vez em quando puxava assunto e despejava discretos elogios enquanto conversavam sobre as crianças. Trocaram olhares e dançaram juntos, com palavras e risadas ao pé do ouvido. Na segunda seguinte estavam os dois aos beijos na praça atrás do colégio onde seus filhos estudavam, ela não tinha trabalho e ele já havia dado aula. Zuleide se sentia realizada, Rômulo era o cara certo que apareceu na hora errada. Tratava ela como uma rainha, enchia de carinhos e beijos, tinha pegada forte, a fazia tremer como bambu verde, Zuleide se sentia uma mulher de verdade. Passavam as tardes de folga num motel e assim foi durante um mês. João desconfiou. Zuleide já não o aguardava mais cheirosa e arrumada e nem implorava por amor as noites. Cismado resolveu investigar o que estava acontecendo e através de um x-9 de plantão que se dizia seu amigo, mas sempre que podia cantava Zuleide, contou o que se passava. No dia seguinte foi à praça atrás do colégio e pegou os dois já saindo pra ir ao motel, não pestanejou e deu três tiros no peito do amante: “na minha mulher ninguém mete a mão!” disse ele com pulmão cheio, puxou Zuleide pelo braço e arrastou pra casa. Chorando, perguntou por que ela fez isso e chorou mais ainda quando a mesma disse a verdade. Arrependido, João disse que ela era a mulher da vida dele e prometeu dar mais valor a ela, ser um homem de “verdade” e deu um longo beijo nela, suspirou até.
E lá estavam os dois jantando de novo, ela toda cheirosa e arrumada e ele a olhando nos olhos. Não foi pra frente da T.V. dessa vez, foi tomar banho enquanto Zuleide a aguardava na cama com um sorriso de orelha a orelha, já estava até sem roupa. João deita ao seu lado, lhe dá um longo beijo, na testa, vira pro lado e dorme. Na manhã seguinte João, roxo de doer, já não respirava mais. Zuleide? Estava com um estranho sorriso nos lábios... Leonardo Zulluh Almeida
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